terça-feira, 12 de agosto de 2014

O que teve: Abertura do Agosto Negro 2014

No dia 11.08.2014, teve início mais um Agosto Negro. Construído pelo Coletivo Vozes da Rua, do bairro Santa Cândida, pelo NAJUP Gabriel Pimenta, pelo MNU e pelas Candaces.

Com uma platéia plural e eclética, o auditório da faculdade Estácio de Sá ficou repleto de cultura e saber negros. E teve bom!

Teve Adenilde Petrina, historiadora e líder comunitária falando sobre o trabalho de emancipação da negritude de periferia com a Rádio Comunitária Mega e como o Agosto Negro chegou em Juiz de Fora.

Teve Tadeu, também historiador, traçando um breve mapa da violência no Brasil, e como o genocídio da população negra brasileira é um plano de mais de cem anos, sendo agora transformado em política pública de segurança.

Teve Paulo Azarias, sindicalista e militante do movimento negro falando sobre a violência contra o povo negro, que é física e identitária, cultural, e como ela vem desde a época da (falsa) abolição, a qual manteve o negro em situação de marginalidade e com seus direitos negados.

E teve muita cultura hip-hop, diretamente dos "becos e vielas, senzalas, favelas", mostrando que a periferia fala, ou melhor, GRITA as mazelas sociais que enfrenta, mas a sociedade fecha os ouvidos. Bem, ontem foi diferente!

E hoje tem mais, às 18h, na Escola Municipal Raymundo Hargrieves, no bairro Bom Jardim, Rua Luiz Fávero, n. 383, a "caravana" continua dando voz à periferia.

Uhuru!
(Liberdade em suaíle)


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AGOSTO NEGRO 2014 CONTRA O GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA: A PERIFERIA FALA......


Você conhece o ditado, né? Agosto, mês de cachorro louco...mas Agosto não é só isso não!
No dia 28 de agosto de l963, aconteceu em Washington, capital do Estados Unidos, uma manifestação política de grandes proporções organizada e liderada entre outros pelo Pastor Martin Luther king, ativista dos direitos humanos e pacifista. Essa marcha teve como lema "MARCHA SOBRE WASHINGTON - POR TRABALHO E  LIBERDADE" no dia 28 de agosto de 1963 e reuniu mais de 250 mil pessoas na cidade para discursar por liberdade, justiça social, trabalho e pelo fim da segregação racial.
Durante este dia manifestantes de toda a parte dos Estados Unidos, oito entre dez deles, negros chegaram a capital do país depois de marcharem pelas estradas para a manifestação programada pelas lideranças negras.
Foi nessa manifestação de massas que o Pastor Martin Luther King fez o discurso com a frase que entraria para a história: "Eu tenho um sonho", que se faz presente até em todo tipo de causas em todas as partes  do mundo.
Esse acontecimento serviu de inspiração para que movimentos de ativistas de Direitos Civis, organizassem eventos  que exigiam a libertação de presos políticos negros, panteras negras e panfletavam contra a discriminação e a segregação racial. Com o tempo esse discurso político foi sendo incorporado  pelas manifestações culturais negras e seu caráter denunciador das injustiças e desigualdades sociais.Aos poucos esse movimento foi se transformando num evento da Cultura Hip Hop na perspectiva de conscientizar o jovem negro e não negro das periferias e denunciar as desigualdades sociais.
O Brasil, como bem vem mostrando a imprensa oficial e denunciado pelas redes sociais,é uma país de maioria negra, onde predomina o racismo e onde a juventude negra vem sendo morta sistematicamente, num verdadeiro genocídio que acontece em todas as periferias.Aqui no nosso país ainda convivemos com um dos índices mais vergonhosos de desigualdade social.
Sendo assim, desde 2003, a Rádio Comunitária FM tomou a iniciativa de construir junto com as Posses de Cultura Hip Hop e movimentos sociais da cidade,  o Agosto  Negro com o objetivo de refletir e  buscar alternativas e essa situação social; trabalhamos desde então assuntos com ações afirmativas, que vem provocando polêmicas onde é discutido e mostrado o quanto nossa sociedade ainda é desinformada.
A nossa responsabilidade é grande principalmente por sabermos e termos consciência da necessidade de informar e conscientizar os jovens de nossa periferia para que se tornem cidadãos dignos, com auto-estima elevada aponto de proporem mudanças positivas para a sua comunidade.
Neste Agosto Negro de 2014, o Coletivo Vozes da Rua terá como parceiros o MNU, o NAJUP Gabriel Pimenta, as Candaces e as escolas municipais.


Quem somos?

COLETIVO VOZES DA RUA - O Coletivo Vozes da Rua é consequência direta da Rádio Comunitária Mega FM do Bairro Santa Cândida, fundada em 1997 com os objetivos de formar, informar, educar e ser ponte para a fraternidade. Foi fechada em 2006. A Rádio Mega colheu a juventude do bairro dando a ela o pertencimento que lhe faltava, usando como instrumento a Cultura Hip Hop e quando a Mega foi fechada, o movimento de  Cultura Hip Hop continuou em várias vertentes como o Encontro de EMc's, JF Crew, AJH2, grupo Harmadilha do Gueto que deu origem ao Coletivo Vozes da Rua que agrega pessoas jovens ou não de vários pontos da cidade interessados em difundir a cultura negra e levar formação e informação aos jovens da periferia. Os nossos objetivos são:
·Proporcionar o conhecimento da história do negro no Brasil
·Fortalecer e reunir manifestações da  Cultura Negra
·Fortalecer a Cultura Hip Hop como formar de agregar os jovens periféricos
·Transmissão de informação e troca de experiências
·Valorizar a criação artística e cultural
·Reunir adeptos e admiradores da Cultura Hip Hop

MNU – Fundado em 18 de junho de 1978 com a denominação  de Movimento Negro Unificado contra a discriminação racial, isto em plena ditadura militar. Lançado em ato público nas escadarias do Teatro Municipal em São Paulo, em 7 de julho de 1978. O MNU tem representantes em 14 estados brasileiros. Sua força  é grande e,   como uma organização de movimento negro,  que é indubitável e ratificada pelas conquistas ao longo dos 36 anos de existência.

NAJUP GP – Núcleo de Assessoria Jurídica Popular Gabriel Pimenta é um coletivo de estudantes e profissionais do Direito e outras áreas (como Ciências Sociais e Comunicação) da Universidade Federal de Juiz de Fora. O NAJUP GP atua na construção, em conjunto com a comunidade organizada em suas diversas formas, da luta por efetivação e conquista de direitos sociais.

CANDACES – Coletivo de mulheres negras


Em breve divulgaremos mais sobre a programação!!!


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A moral delxs e a ética militante.

Trostskistas e weberianos talvez sintam se familiarizados com o título desta postagem, uma alusão irreverente às suas respectivas obras “A moral deles e a nossa”¹ e “A ética protestante e o espírito do capitalismo”²... mas aqui não trataremos do significado político destes dois autores. Não. Aqui iremos tratar da importante relação entre o espírito e a luta, isto é, o pessoal e o político.

Um diálogo sempre complicado para marxistas é este entre o subjetivo (o pessoal, o individual, o emocional) e o social (o objetivo, as relações político-econômicas em escala global).

Bem, vamos à questão... As mulheres do “Womens Liberation”³ na segunda onda do feminismo (década de 1960 nos EUA) trouxeram uma importante constatação para todos os movimentos que se dizem libertários: O PESSOAL É POLÍTICO.

A ideologia (segundo a concepção marxiana) penetra na esfera subjetiva e se torna algo tão intrínseco ao ser social que se torna dele o reflexo ao passo que é dele o substrato. Pois se existe machismo, ele se manifesta nas pequenas emoções que ocorrem no íntimo dos indivíduos antes mesmo de se tornar externo na violência doméstica e na desigualdade salarial entre gêneros. E assim também com o racismo e a homofobia. Assim também com a subalternização da classe trabalhadora. Assim como todos os pressupostos que fundamentam as relações sociais na sociedade burguesa e patriarcal.

Que pressupostos são esses? Sabemos, sem pestanejar, discutir a mais-valia, sabemos discutir a exploração, o machismo e a homofobia (...será?). Mas sabemos discutir a honestidade? Sabemos discutir o companheirismo? Sabemos discutir coragem e comprometimento?

Ora, é claro, se me permite o velho Leon
“que [...] não nos venham dizer que o escravagista que com mentira e violência aprisiona o escravo está, diante da moral, no mesmo plano que o escravo que com a mentira e a violência quebra os seus grilhões.”
Invoco aqui esta passagem para que de uma vez não pareça que aqui faremos referência a uma moral, uma ética derivada de falaciosos e decadentes conceitos oriundos de uma tradição judaico-cristã. A moral de que falaremos não é a delxs. Aqui falaremos da nossa! Falaremos da ética militante.

Não confundiremos a violência do opressor com a resposta do oprimido. Isso, porque falamos aqui àquelas pessoas que dizem estar do mesmo lado da luta, aquelas que dizem estar à esquerda, entre os revolucionários comprometidos com a emancipação do ser humano.

Primeiramente, em e entre nossas organizações temos a tarefa de extinguir práticas que reproduzam o ethos da sociedade opressora contra a qual nos opomos. É nosso dever primário aniquilar o racismo, o machismo, a homofobia e o elitismo em nossos grupos de atuação e entre eles. Se tais práticas opressoras não valem em nós nem entre nós, quem dirá contra elxs (elxs = opressorxs). Não podemos ser nós mesmxs, xs libertários, aquelexs que oprimem! Acho que isto já é algo relativamente claro para as organizações e militantes sérixs da esquerda.

Entretanto, venho aqui elucidar sobre algo já colocado lá atrás: a moral do patriarcado capitalista também é permeada por outros elementos nocivos como a desonestidade, a irresponsabilidade, o egoísmo, a ignorância, o descompromisso e a covardia. Esses elementos também são ideológicos e merecem ser também combatidos entre nós.

Militantes comprometidxs com o empoderamento da classe trabalhadora e com a libertação humana não podem incorrer em práticas inescrupulosas, práticas essa que, para além de soarem como uma mera ofensa a pessoalidade de cada um, são na verdade a reprodução e perpetuação do ethos opressor do capitalismo. São ainda mais: um verdadeiro favor para os grupos dominantes, pois tratam de destruir qualquer coesão entre os movimentos de luta.

A ética militante deve ser diferenciada sim. Se não for, seremos iguais àqueles que combatemos. Seremos traidores ou no mínimo hipócritas . Nosso compromisso maior deve ser com a verdade, o sectarismo tolo é debilitante, só demonstra falta de coragem, ignorância e egoísmo. As divergências são importantes pois a crítica elucida, mas precisamos saber lidar com elas tomando-as segundo as suas devidas proporções sem emocionar o que é racional e sobretudo, mantendo-nos fieis aos nossos princípios norteadores.

É verdade, não podemos nos furtar de endurecer! Mas sem nunca perder a ternura, sem nunca perder a fidelidade para com os nossos ideais.

O socialismo é a sociedade onde vigora a liberdade uníssona à solidariedade.

Solidariedade... lembrem-se disso!


[1] TROTSKY, Leon. A moral deles e a nossa. In: Marxismo Vivo nº 13, p.63-73. Editora Sundemermann. São Paulo, 2006.
Link para acesso: https://www.archivoleontrotsky.org/download.php?mfn=7078
[2] WEBER, Marx. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Editora Pioneira, São Paulo, 1996.
Link para acesso:
http://www.nesua.uac.pt/uploads/uac_documento_plugin/ficheiro/8db98cff48151daf946fe625988763bfb0737c7e.pdf
[3] Para saber mais sobre a segunda onda feminista, recomendo essa série do programa Makers sobre o “Women’s Liberation”:
Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=XcH2ppft2Gw
Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=aAic_v6L7N0
Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=rkFv1Y_lKa0

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Nucleação

        O NAJUP Gabriel Pimenta convida a todxs para participar da nossa Nucleação, que ocorre em três fases nos dias: 31/05, 07/06 e 14/06 às 16hs, na Sala do Projeto Popular!

Inscrições: https://docs.google.com/forms/d/1DT39WOSRAoujx_Wm4gh8r_2ZnKqwniMF6U0rtP8qQi8/viewform

         Com espaço de formação, contato com os referências teóricos, princípios, metodologia e projetos do NAJUP-GP.

terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de Maio: Uma data para se refletir

“A carne mais barata do mercado é a carne negra...”

          Há exatos 126 anos atrás, a Princesa Isabel assinava aquilo que se chamaria de Lei Áurea e abolição da escravatura, mas o que deveria ser a solução para a situação de subalternidade das negras e negros na sociedade brasileira foi somente mais um ato de espoliação cruel dos direitos dos agora cidadãos e cidadãs.

          Como diz Florestan Fernandes de maneira bastante acertada, a abolição é uma ironia atroz, pois em questão de minutos, “o liberto viu-se convertido, sumária e abruptamente, em senhor de si mesmo, tornando-se responsável por sua pessoa e por seus dependentes, embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar essa proeza nos quadros de uma economia competitiva”[1].

           Trata-se de uma abolição inacabada, não concluída, literalmente para inglês ver, que não contempla a história de luta do povo negro no Brasil e todos seus movimentos de resistência. A história contada ainda hoje enaltece a benevolência e generosidade do branco, e piedade da Princesa Isabel ao proclamar a escravidão como abolida, mas que nada diz da situação de miséria e desamparo a que o negro foi sujeitado após a assinatura da lei.

          Hoje, o Brasil é composto de aproximadamente 51% de negras e negros, no entanto a população negra ainda sofre os efeitos da exclusão. Se antes o lugar das negras e negros era na senzala e sob o estalar do chicote, hoje o lugar não é muito distinto. De acordo com o DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional), 60% da população carcerária é negra e, segundo o Datasus (Ministério da Saúde), 70% das vítimas de assassinato é negra. Por isso Elza Soares canta com tanta indignação que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, que é aquela “que vai de graça pro presídio e pra debaixo do plástico; que vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos”.

           Não dá mais! Que o 13 de Maio não seja uma data comemorativa, mas que sirva de marco reflexivo da situação atual da população negra no Brasil, reclusa às periferias e destituída da prestação dos serviços básicos do Estado, vítima diária de racismo e da seletividade do sistema prisional.

           Para que tenhamos uma verdadeira abolição da condição de subalternidade que encerra a população negra ainda há muito a se fazer, e liberdade pela qual se lutar!

           Rebelemo-nos!
           Uhuru![2]

NAJUP Gabriel Pimenta

[1]FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. Vol. 1. São Paulo: Ática, 1978, p.15.
[2]Palavra ‘LIBERDADE’ em Suaíle.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Como formar uma AJUP?

          Muito mais do que receita pronta, o que disponibilizo a seguir são onze elementos que acredito serem fundamentais para a formação e manutenção de uma Assessoria Jurídica Universitária Popular (AJUP).

1. Descobrir-se coletivamente

          Encontrar estudantes e, por vezes, docentes e técnicos que compartilhem dos ideias e da vontade de atuar no ambito da AJUP é tarefa que transcende o próprio curso do Direito. Em muitos casos, a reunião do grupo de sujeitos que dará início ao processo de formação e manutenção da entidade ocorre pelo compartilhamento da crítica às práticas tradicionais dos cursos universitários, voltados para propostas desvinculadas das problemáticas sociais relevantes, o que coloca o referencial da AJUP como contra-proposta ao marasmo acadêmico, e potencializa a inserção da educação popular em direitos humanos enquanto discurso de repercursão e inserção interdisciplinar, de reencontamento com a educação e de fomento ao protagonismo estudantil na formação e politização universitária. Importante frisar que o planejamento do trabalho coletivo deve ser realizado de modo a não sobrecarregar determinadas pessoas, potencializar as práticas educacionais a partir da valorização das diferentes contribuições de cada participante e manejar a passagem das gerações que irão atuar na AJUP.

2. Projeto Político

          Trata-se da elaboração do projeto para a AJUP e da AJUP para a sociedade e universidade em relação ao conteúdo intrínseco da(s) problemática(s) que a constitui. É fundamental a elaboração escrita deste documento, que se torna a matriz identitária e político-organizacional da proposta ajupiana, onde podem ser encontrados os pressupostos, as reivindicações e as propostas, passíveis de serem reformulados ao longo da atuação. A estrutura do projeto pode conter sistematização similar às encontradas no ambito acadêmico formal – introdução, justificativa, hipóteses, metodologia, objetivos, etc. –, mas deve sinalizar com atenção as bases político-ideológicas e teórico-metodológicas da entidade, de forma a garantir a coerência da ação e a manutenção para além de conjunturas político-institucionais pontuais. O projeto político não pode ser confundido com o projeto extensionista ou de pesquisa, ele é, a meu ver, a carteira de identidade de cada AJUP, sua carta de apresentação e representação que sinaliza a própria razão de existir da entidade e responde, basicamente, a três perguntas: por que formar uma AJUP? para (o) que(m)? e a favor/contra o que?

3. Institucionalização

          Processo de enraizamento das entidades nos espaços universitários estrategicamente ocupados. A institucionalização ajuda tanto na manutenção financeira da entidade, em especial a partir do ingresso em editais de seleção de bolsas de extensão e pesquisa, como no fortalecimento político, por meio da defesa da valorização da prática ajupiana como modalidade extensionista que necessita de local próprio para operacionalizar as atividades, se possível com a aquisição de sala com materiais de consumo e permanentes, e da oferta de carga-horária anual para os discentes que participam diretamente – algo que pode ser incluído na carga-horária obrigatória de atividades complementares ou como disciplina optativa do percurso acadêmico. Não se pode esquecer de reinvindicar, quando possível, a inclusão da AJUP no Plano Pedagógico do Curso e nos Planos de Gestão, o que reforça o caráter permanente da proposta e instrumentaliza a entidade para posteriores reivindicações político-institucionais pela melhoria das condições da AJUP e do curso universitário.

4. Interdisciplinaridade

          O trabalho interdisciplinar envolve o esforço do reconhecimento das incompletudes teóricas dos ramos da ciência moderna e a proposta de articulação solidária e planejada entre diferentes sujeitos de saberes científicos para a potencialização das ações extensionistas desenvolvidas na AJUP. A reivindicação da interdisciplinaridade na AJUP ganha ares de bandeira de luta pela expansão interna na universidade, saindo do gueto tradicional dos cursos de Direito para procurar integrar sujeitos oriundos de outros campos do conhecimento científico, como Pedagogia, Psicologia e Sociologia. O trabalho com a educação popular e com os direitos humanos, além das inserções específicas de cada entidade na realidade local de atuação, são fontes própícias para o fomento do diálogo interdisciplinar, e necessitam serem realizadas de modo a garantir a autonomia de cada sujeito de saber no espaço de atuação e articular engajamentos conjuntos para a melhoria das atividades.

5. Formação interna

          A formação interna deve ser contínua, dando enfase ao caráter permanente desta tarefa. De início, é necessária a leitura e discussão de textos, concomitante a problematização de vídeos, poesias, músicas, entre outros recursos didáticos, sobre conteúdos compreendidos como relevantes pelo grupo para o amadurecimento da entidade. Neste caso, as discussões coletivas tem peso fundamental no processo de constituição das marcas identitárias da AJUP, pois possibilitam a determinação de posições majoritárias em relação a determinados assuntos, o que se reflete no modo como a AJUP pode externalizar para outros sujeitos e entidades suas definições. Além disso, é salutar que a formação interna abarque temas – universidade, direitos humanos, educação popular, movimentos sociais, interdisciplinariedade, acesso à justiça, socialismo e assessoria jurídica (universitária) popular – que são cruciais para o diálogo com outras AJUP’s no ambito da Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias (RENAJU) e compreensão do que seja atuar em/como AJUP. Por isso, o ideal seria que a formação interna contínua fosse planejada de modo a acolher assuntos gerais, os mencionados acima, e temas específicos dos grupos de estudantes, sobretudo os voltados para as práticas de extensão, pesquisa e ensino de interesse.

6. Intercâmbio regional e nacional

          O início da prática de AJUP num determinado local universitário está quase sempre atrelado ao incentivo desenvolvido em estudantes, isolados ou coletivamente organizados, por meio da participação no Encontro Nacional dos Estudantes de Direito (ENED), onde ocorre o Encontro das Assessorias Jurídicas Universitárias (ENAJU), quando há o primeiro contato com participantes de AJUP’s e a compreensão da maneira de atuação e organização destas entidades. O passo seguinte é a inserção na lista virtual da RENAJU e a participação nos outros eventos nacionais ou regionais que compõe o cronograma de atividades da Rede – o Encontro Nacional das Assessorias Jurídicas Universitárias Populares (ERENAJU), normalmente realizado no mês de abril de cada ano, no feriado da pascoa; e os dois Encontros Regionais, norte-nordeste e sul-centro-oeste-suldeste, que ocorrem no segundo semestre de cada ano. A participação nestes eventos e na lista virtual possibilita o intercambio de idéias, materiais e experiencias fundamentais para o amadurecimento de novas AJUP’s e estratégicos para o fortalecimento da RENAJU. Em muitos casos, como ocorreu durante o período de formação do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular “Aldeia Kayapó” da UFPA, em 2004, o deslocamento de membros de AJUP’s mais antigas – no nosso caso, do companheiro Igor Almeida do NAJUP “Negro Cosme” da UFMA – para realizarem oficinas com os membros de novas AJUP’s é ação estratégica que possibilita intercambio prolongado sobre o cotidiano, os marcos teóricos e os caminhos a serem traçados.

6. Rede de parceiros

          A designação representa o conjunto de atores e instituições sociais, públicas ou privadas, que dialogam com a AJUP e possibilitam a articulação de ações em rede. Os parceiros podem contribuir tanto para a participação em ações internas de cada entidade quanto para o desenvolvimento de atividades coletivamente construídas e organizadas, como os Comites e Fóruns. Sobretudo, é importante pensar a formação da rede de parceiros como medida para ampliar a repercussão e abragencia de ações extensionistas desenvolvidas pela AJUP, principalmente quando ocorre a articulação com instituições estatais e movimentos sociais, pois isto garante a transformação de discussões pontuais em pautas de reivindicações e políticas públicas para a efetivação de determinados direitos humanos que mostram-se ausentes ou violados em outros locais além daquele onde se trabalha mais detidamente.

7. Ação extensionista

          Historicamente, as AJUP’s garantem a institucionalização e a representação na universidade por meio da tradução de suas ações sociais em projetos de extensão universitária. Por que a extensão? Porque é o espaço acadêmico privilegiado para o diálogo e a interação com a sociedade, materializado, notadamente na AJUP, respeitando a indissiocialibilidade entre extensão, pesquisa e ensino, e promovendo a politização da função social da universidade, e dos saberes científicos engajados, para a articulação democrática com os saberes e sujeitos populares. O que a tradução como extensão universitária garante? Em primeiro lugar, mínimos recursos financeiros, por intermédio da concessão de bolsas que subsidiam as despesas necessárias para a realização das atividades e manutenção da entidade. Em segundo lugar, a formalização da entidade, ou seja, o reconhecimento institucional de sua(s) proposta(s) de intervenção sócio-acadêmica e credibilidade do grupo de participantes. Em terceiro, a inserção no espaço das extensões universitárias, com a possibilidade de intercambio de conhecimentos e sujeitos entre os diferentes projetos que a integram e a divulgação das atividades desenvolvidas e do ideal de AJUP nos eventos institucionais regionais – as Jornadas de Extensão, que ocorrem normalmente no final do ano – e nacional – o Congresso Nacional de Extensão Universitária. No entanto, é necessário haver a construção de projeto escrito e a procura por professor universitário que possa coordená-lo, este último requisito alvo de muita dificuldade, na maioria das AJUP’s, devido a carência de educadores que se comprometam em coordenar atividades extensionistas – haja vista o total descaso com que a extensão universitária é tratada no ambito acadêmico, com disponibilização de parcos recursos e desvalorização em relação a pesquisa e ensino – ou compartilhem dos ideais e forma de atuação da assessoria jurídica – pois a maioria deles (ainda) pensa a extensão univeristária pela ótica da assistencia jurídica, com foco na prestação de serviços esporádicos, paternalistas e conservadores. Ainda assim, e seja qual for o coordenador escolhido, a autonomia e o protagonismo estudantil não podem ser abalados, sob pena de perda de uma das principais marcas identitárias e organizacionais da AJUP.

8. Divulgação e Produção

          Divulgar a AJUP significa, literalmente, dá-la visibilidade nos espaços sociais e acadêmicos onde atua. Muitas vezes, os estudantes de Direito passam o curso todo sem sequer terem ouvido falar da AJUP que nele existe. A divulgação da AJUP fortalece sua imagem, incentiva a inserção de novos membros e amplia a rede de parceiros. De que modo é possível divulgar a AJUP? De muitos modos, por meio de cartazes, folderes, camisetas, seminários, blog, passagem em salas de aula, entre outras medidas. Em especial, a divulgação também pode ser feita através da produção teórica e publicação decorrente em revistas, anais, livros ou outros meios impressos ou eletrônicos. No entanto, a produção teórica traz consequências maiores do que a divulgação, torna-se mecanismo fundamental de reflexão sobre as ações desenvolvidas, de apropriação de marcos teóricos, de amadurecimento individual e coletivo, e de registro histórico. O engajamento na teorização das práticas necessita ser igual ao da pratica do teorizado, pois esta relação dialética permite a melhoria das ações e o fortalecimento da AJUP.

9. Registro histórico

          A produção de banco de dados sobre o passado de cada AJUP garante a oportunização de informações sobre sua história. Muitas vezes, a preocupção apenas com o cotidiano, com o que ocorre no presente, atrelado ao fato de sermos sobrecarregados com múltiplas tarefas diárias, impossibilita que os participantes da entidade tenham a real dimensão da importancia desta ação. A produção e manutenção de registros históricos, seja os de ambito administrativo – as atas de reuniões, os e-mails da lista virtual e os produtos técnicos (cartazes, folderes, informativos, ofícios, gravações, fotografias, estruturas de oficinas, listas de frequências, entre outros) – ou os de cunho acadêmico – os artigos, as monografias, dissertações e teses, os livros e demais materiais bibliográficos que formam a biblioteca de cada AJUP, entre outros – representam medida estratégica para a longevidade das entidades e compreensão dos caminhos a serem tomados no presente e no futuro. Por isso, seria salutar que alguns membros ficassem responsáveis pela organização deste banco de dados e disponibilização para os outros membros ou demais pessoas/entidades interessadas.

10. Fomentar o tesão

          O tesão é um princípio ajupiano, ou melhor, é um princípio de todo ato revolucionário que se reconhece como solidário, democrático e emancipatório. Postular o fomento ao tesão é fazer da participação na AJUP momento de diversão, de descontração e de reencontro com sentimentos pouco valorizados pela ciência, educação, mercado e sociedade moderna, como o amor, a amizade e o companheirismo. Por um lado, a inserção de dinâmicas e outras atividades lúdicas ou artisticas (poesias, músicas, brincadeiras, teatro, dança, filmes, etc) fomentam a produção do tesão nas ações desenvolvidas, seja numa simples reunião de final de semana, numa formação interna, ou numa oficina da ação extensionista. Mas isto somente não é o bastante. O tesão também precisa ser fomentado pela oportunização de atividades periódicas de lazer, momento em que os participantes da AJUP se reunem para festajar a vida e compartilharem instantes de alegria e descontração que fortalecem a união entre os membros e a vontade de atuar. A leitura (coletiva) do Estatuto do Tesão (Lei Complementar n. 0.001 de 01 de abril de 2003) também é medida importante, para o entendimento da abragência e potencialidade do tesão, e compreensão de que este representa “... a paixão, o entusiasmo, a alegria, a motivação e a juventude necessárias à construção de um mundo livre e igualitário, onde a felicidade e a beleza sejam experiencias cotidianas...”, como disciplina o art. 2º.


PUBLICADO EM: http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com.br/2010/01/como-formar-uma-ajup.html